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O que é reserva estratégica de bitcoin e por que ela entrou no debate global?
28 de janeiro de 2026 |

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28 de janeiro de 2026 |

A ideia de “reserva estratégica” costuma remeter a petróleo, grãos ou ouro. São estoques mantidos por governos para lidar com choques de oferta, crises econômicas ou guerras.
Nos últimos anos, porém, um novo ativo entrou nessa conversa: o bitcoin. A partir do momento em que estados passaram a acumular quantidades relevantes da criptomoeda — em geral via apreensões ou mineração — surgiu a pergunta: faria sentido tratar esse estoque como uma reserva estratégica?
O tema ganhou ainda mais visibilidade quando o governo dos Estados Unidos assinou uma ordem executiva criando a Strategic Bitcoin Reserve e um Digital Asset Stockpile, destinados a concentrar o bitcoin e outros criptoativos sob controle federal, principalmente os obtidos em processos de confisco.
Mas, afinal, o que diferencia uma reserva estratégica de bitcoin de outras formas de guardar cripto? O que já existe, quais países estão se movendo nessa direção e quais são os riscos envolvidos?
Continue a leitura para entender!
De forma geral, uma reserva estratégica é um estoque de um insumo considerado crítico para o funcionamento da economia, mantido pelo poder público para ser usado em situações excepcionais.
O exemplo clássico é a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos, criada nos anos 1970 após o choque do petróleo e usada em momentos de crise de oferta ou para aliviar pressões de preço.
A lógica é simples: quando há um choque — um embargo, uma guerra, um desastre natural — o governo pode liberar parte desses estoques para estabilizar o mercado interno, ganhar tempo e reduzir o impacto econômico e político da escassez.
No caso de reservas financeiras (como ouro ou dólares), a função é dar lastro à política monetária, fortalecer a confiança na moeda e ampliar a capacidade de resposta a crises cambiais.
Seguindo essa mesma lógica, uma reserva estratégica de bitcoin é um estoque de BTC mantido pelo Estado com objetivos de longo prazo, e não apenas como resultado pontual de apreensões ou operações de mercado.
Certas características se repetem nas propostas em discussão:
A grande diferença em relação às reservas tradicionais é que o bitcoin não é um insumo físico essencial, como petróleo ou grãos. Ele é um ativo financeiro digital, com oferta conhecida e limitada, negociado globalmente 24/7.
Mesmo antes de falar explicitamente em “reserva estratégica”, diversos governos já acumulam BTC. Em muitos casos, isso aconteceu quase por acidente, com o aumento das apreensões ligadas a crimes digitais.
Estimativas de 2025 indicam que os maiores detentores governamentais de bitcoin incluem:
Há ainda os chamados “detentores sombrios”, como a Coreia do Norte, que, segundo relatórios de inteligência, financia parte de seu programa militar com cripto obtida em ataques cibernéticos.
Os argumentos a favor de uma reserva estratégica de bitcoin costumam se concentrar em quatro pontos principais:
Em um mundo de juros altos, endividamento crescente e tensões geopolíticas, alguns formuladores de política defendem que depender apenas de dólar, euro e ouro deixa os países vulneráveis a sanções ou a mudanças na política monetária de grandes potências.
O bitcoin tem oferta limitada (21 milhões de unidades), o que o torna atrativo para quem teme perda de poder de compra das moedas fiduciárias ao longo do tempo. A lógica é semelhante à do ouro, mas aplicada a um ativo totalmente digital.
Países sob sanções ou com pouco acesso ao sistema financeiro internacional veem no bitcoin uma forma de liquidar parte de seu comércio exterior sem passar integralmente por bancos tradicionais, reduzindo a dependência do dólar.
Para economias que querem se posicionar como hubs de inovação financeira, manter bitcoin em reserva pode ser um gesto simbólico, de apoio ao ecossistema de criptoativos e à infraestrutura de blockchain.
Veja também: O papel das stablecoins em estratégias de hedge cambial
Ao mesmo tempo, a ideia de uma reserva estratégica de bitcoin enfrenta resistências importantes entre economistas, bancos centrais e reguladores.
A volatilidade é um dos principais argumentos contrários. Quedas rápidas e acentuadas tornam difícil usar o ativo como fator de estabilidade, especialmente quando reservas tradicionais, como o ouro, costumam reagir de forma mais previsível.
Também pesa o fato de o bitcoin se comportar como um ativo de risco. Em períodos de aperto monetário ou incerteza global, ele costuma cair, justamente quando uma reserva deveria servir como proteção.
Outro ponto sensível é o risco fiscal. Se o governo compra bitcoin e o preço despenca, a perda recai sobre o contribuinte, o que pode gerar desgaste político e questionamentos sobre a gestão econômica.
Em países com moedas frágeis, acumular bitcoin em escala ainda pode ser interpretado como falta de confiança na própria moeda. Isso alimenta receios de dolarização ou “bitcoinização” informal, criando pressões adicionais para a política monetária.
Para investidores e demais usuários, o avanço dessas reservas não significa que o BTC se tornará automaticamente um “porto seguro” infalível. Entretanto, ela pode indicar que estados nacionais não veem mais a criptomoeda apenas como nicho especulativo ou problema regulatório: ela passa a ser tratada como variável a ser considerada em estratégias de longo prazo.
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É um estoque de BTC sob controle do Estado, pensado como ativo de longo prazo e não apenas como resultado pontual de apreensões, com objetivos que vão de diversificação de reservas a sinalização geopolítica.
Estados Unidos, China, Reino Unido, Ucrânia, El Salvador e Butão estão entre os maiores detentores soberanos conhecidos, em geral combinando moedas apreendidas em operações de combate ao crime com estratégias ativas de compra ou mineração.
Os motivos incluem diversificar reservas além do dólar e do euro, proteger parte do patrimônio público de inflação e riscos cambiais, contornar sanções em alguns casos e reforçar a imagem de país aberto à inovação financeira.
A volatilidade elevada, a correlação com o ciclo de risco global, o risco fiscal em caso de quedas de preço, a necessidade de regras claras de governança e o potencial conflito com a confiança na moeda nacional ainda limitam o avanço de reservas estratégicas de bitcoin em escala global.